Os direitos dos alunos, consagrados no respectivo estatuto, são os mais abrangentes e absurdos que se possa imaginar
As cenas de pancadaria na escola têm comovido a opinião. A última ocorreu numa escola do Porto e foi devidamente filmada por um colega. Em poucas horas, o clip correu mundo através do YouTube. A partir daí, choveram as análises e os comentários. Toda a gente procura responsáveis, culpados e causas. Os arguidos são tantos quanto se possa imaginar: os jovens, os professores, os pais, o ministério e os políticos. E a sociedade em geral, evidentemente. As causas são também as mais diversas: a democracia, os costumes contemporâneos, a cultura jovem, o dinheiro, a televisão, a publicidade, a Internet, a permissividade, a falta de valores, os "bairros", o rap, os imigrantes, a droga e o sexo. Para a oposição, a culpa é do Governo. Para o Governo, a culpa é do Governo anterior. O trivial
Deve haver um pouco disso tudo, o que torna as coisas mais complicadas - sobretudo quando se pretende tomar medidas ou conter a vaga crescente de violência e balbúrdia. Se as causas são múltiplas, por onde começar? Mais repressão? Mais diálogo? Mais disciplina? Mais co-gestão? Há aqui matéria para a criação de várias comissões, a elaboração de um livro branco, a aprovação de novas leis e a realização de inúmeros estudos. Até às eleições, haverá debates parlamentares sobre o tema. Não tenho a certeza, nem sequer a esperança, que o problema se resolva a breve prazo.
De qualquer maneira, a ocasião era calhada para voltar a ver a obra-prima do esforço legislativo nacional, o famoso "estatuto do aluno". A sua última versão entrou em vigor em finais de Janeiro, sendo uma correcção de outro diploma, da mesma natureza, de 2002. Trata-se de uma espécie de carta constitucional de direitos e deveres, a que não falta um regulamento disciplinar. Não se pode dizer que fecha a abóbada do edifício legal educativo, porque simplesmente tal edifício não existe. É mais um produto da enxurrada permanente de leis, normas e regras que se abate sobre as escolas e a sociedade. É um dos mais monstruosos documentos jamais produzidos pela administração pública portuguesa. Mal escrito, por vezes incompreensível, repete-se na afirmação de virtudes. Faz afirmações absolutamente disparatadas, como, por exemplo, quando considera que "a assiduidade (...) implica uma atitude de empenho intelectual e comportamental adequada..."! Cria deveres inéditos aos alunos, tais como o de se "empenhar na sua formação integral"; o de "guardar lealdade para com todos os membros da comunidade educativa"; ou o de "contribuir para a harmonia da convivência escolar". E também os obriga a conhecer e cumprir este "estatuto do aluno", naquele que deve ser o pior castigo de todos! Quanto aos direitos dos alunos, são os mais abrangentes e absurdos que se possa imaginar, incluindo os de participar na elaboração de regulamentos e na gestão e administração da escola, assim como de serem informados sobre os critérios da avaliação, os objectivos dos programas, dos cursos e das disciplinas, o modo de organização do plano de estudos, a matrícula, o abono de família e tudo o que seja possível inventar, incluindo as normas de segurança dos equipamentos e os planos de emergência!
Trata-se de um estatuto burocrático, processual e confuso. O regime de faltas, que decreta, é infernal. Ninguém, normalmente constituído, o pode perceber ou aplicar. Os alunos que ultrapassem o número de faltas permitido podem recuperar tudo com uma prova. As faltas justificadas podem passar a injustificadas e vice-versa. As decisões sobre as faltas dos alunos e o seu comportamento sobem e descem do professor ao director de turma, deste ao conselho de turma, destes à direcção da escola e eventualmente ao conselho pedagógico. As decisões disciplinares são longas, morosas e processualmente complicadas, podendo sempre ser alteradas pelos sistemas de recurso ou de vaivém entre instâncias escolares. Concebem-se duas espécies de medidas disciplinares, as "correctivas" e as "sancionatórias". Por vezes, as diferenças são imperceptíveis. Mas a sua aplicação, em respeito pelas normas processuais, torna inútil qualquer esforço. As medidas disciplinares são quase todas precedidas ou acompanhadas de processos complicados, verdadeiros dissuasores de todo o esforço disciplinar. As medidas disciplinares dependem de várias instâncias, do professor aos órgãos da turma, destes aos vários órgãos da escola e desta às direcções regionais. Os procedimentos disciplinares são relativos ao que tradicionalmente se designa por mau comportamento, perturbação de aula, agressão, roubo ou destruição de material, isto é, o dia-a-dia na escola. Mas a sua sanção é de tal modo complexa que deixará simplesmente de haver disciplina ou sanção.
O estatuto cria um regime disciplinar em tudo semelhante ao que vigora, por exemplo, para a administração pública ou para as relações entre administração e cidadãos. Pior ainda, é criado um regime disciplinar e sancionatório decalcado sobre os sistemas e os processos judiciais. Os autores deste estatuto revelam uma total e absoluta ignorância do que se passa nas escolas, do que são as escolas. Oscilando entre a burocracia, a teoria integradora das ciências de educação, a ideia de que existe uma democracia na sala de aula e a convicção de que a disciplina é um mal, os legisladores do ministério (deste ministério e dos anteriores) produziram uma monstruosidade: senil na concepção burocrática, administrativa e judicial; adolescente na ideologia; infantil na ambição. O estatuto não é a causa dos males educativos, até porque nem sequer está em vigor na maior parte das escolas. Também não é por causa do estatuto que há, ou não há, pancadaria nas escolas. O estatuto é a consequência de uma longa caminhada e será, de futuro, o responsável imediato pela impossibilidade de administrar a disciplina nas escolas. O estatuto não retira a autoridade na escola (aos professores, aos directores, aos conselhos escolares). Não! Apenas confirma o facto de já não a terem e de assim perderem as veleidades de voltar a ter. O processo educativo, essencialmente humano e pessoal, é transformado num processo "científico", "técnico", desumanizado, burocrático e administrativo que dissolve a autoridade e esbate as responsabilidades. Se for lido com atenção, este estatuto revela que a sua principal inspiração é a desconfiança dos professores. Quem fez este estatuto tinha uma única ideia na cabeça: é preciso defender os alunos dos professores que os podem agredir e oprimir. Mesmo que nada resolva, a sua revogação é um gesto de saúde mental pública.
in Público, por António Barreto
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sábado, 5 de abril de 2008
segunda-feira, 24 de março de 2008
O professor - essa máquina
100% de assiduidade para poder ter a classificação Excelente.
95% de assiduidade para poder ter a classificação Muito Bom.
Esta assiduidade exigida é absoluta. Não contempla faltas justificadas ou injustificadas. Não flexibiliza perante doença, acidentes ou prestação de auxílio a filhos menores. Professor não tem furo no pneu, não tem filhos com consultas no médico, não adoece, não tem familiares a falecer. Ou, se tiver, convém que seja TUDO no período de interrupção lectiva.
Já somos obrigados a ter as nossas férias nos meses de verão - época alta. Parece que vamos tentar juntar doenças, falecimento de familiares, consultas no médico e outros azares para essa altura.
95% de assiduidade para poder ter a classificação Muito Bom.
Esta assiduidade exigida é absoluta. Não contempla faltas justificadas ou injustificadas. Não flexibiliza perante doença, acidentes ou prestação de auxílio a filhos menores. Professor não tem furo no pneu, não tem filhos com consultas no médico, não adoece, não tem familiares a falecer. Ou, se tiver, convém que seja TUDO no período de interrupção lectiva.
Já somos obrigados a ter as nossas férias nos meses de verão - época alta. Parece que vamos tentar juntar doenças, falecimento de familiares, consultas no médico e outros azares para essa altura.
sexta-feira, 21 de março de 2008
Onde está a Ministra?
Ela aparece 40 vezes por semana na televisão. Cara de poucos amigos, geralmente. Não gosta que lhe façam muitas perguntas que fujam muito daquilo que decorou previamente - pedagogicamente falando, esta Ministra seria uma péssima aluna, daquelas que decoram em vez de entenderem a matéria - e responde torto! Isto quando se digna a responder, como ficou esta semana provado no parlamento, que até mereceu o comentário irónico de Ana Drago.
Pois bem, tem-nos entrado pela casa dentro, via TV, a falar dos "professorzecos" (como ela nos chama), da avaliação, das escolas que querem fazer a avaliação, do enormíssimo sucesso do seu trabalho, do grandioso legado que, certamente, nos deixará.
Esta semana veio a público o caso da agressão feliz ou infelizmente filmado por um aluno. Deixem-me analisar esta frase antes de seguir em frente. "Agressão". Uns papás dirão que exagero, que a aluna não agrediu ninguém. Provavelmente, os mesmos papás que, caso a situação se invertisse ou se um professor ousasse tocar no proverbial cabelo de sua menina classificariam o acto como uma "brutal agressão". Nada que me tire o sono, portanto. O "feliz ou infelizmente filmado", por seu lado, reporta-se à filmagem em si, feita com um telemóvel. Por um lado é bom que situações destas venham a público, para que se veja o que é, na verdade, o trabalho de um professor. Pois é, é que os filhos que vocês "educam" aí em casa desta forma, agem desta forma connosco. Não são os santinhos que alguns pintam, de auréola redondinha a beijar-lhe a testa. Por outro, quem o filmou, fê-lo utilizando um equipamento proibido na sala de aula. Fê-lo, filmando e rindo-se alarvemente da situação em vez de intervir. Gozou com a situação em vez de a criticar, porque ele também é prejudicado por não ter a aula que deveria ter - e ser do seu interesse. No fundo, foi mais um idiota a aplaudir a festa.
Mas adiante. A mesma Ministra que tanto tem aparecido, o mesmo Primeiro-Ministro que tanto tem esganiçado a voz a defender as políticas e o resultado das políticas da sua subordinada, a mesma Ministra que, no fundo, é a nossa "patroa", desta vez calou-se.
Nem uma palavra de apreço, de solidariedade, de crítica a este tipo de alunos que - pusesse ela os pezinhos numa escola e ficaria a saber - estão em todo o lado. O meu "patrão" não defendeu a minha classe. Remeteu-se ao silêncio. A senhora que apregoa os grandes resultados das suas políticas foi incapaz de assumir que este é um sub-produto das mesmas, resultante da desautorização, da falta de respeito e do enxovalhamento público da figura do Professor que ela própria promoveu. Tudo são rosas! Os números dizem-nos tudo o que há para dizer! Todos os alunos passam de ano, o número de alunos a desistir do ensino desceu a pique, há cada vez mais alunos a concluírem o ensino obrigatório! Fantástico! Soem as trombetas!
Mas não são melhores, senhora Ministra! Podem ter o 9º ano, mas são, em muitos casos, aquilo que se vê ali. Gentinha sem educação, sem qualquer respeito pela autoridade, sem métodos de trabalho, sem responsabilidade cívica ou laboral, sem controlo, sem brio. São o resultado do esplendoroso culto da mediocridade por si (e pelos anteriores ministros, vá, que a culpa não será só sua) implementado, cultivado, acarinhado. E, senhora Ministra, um dia recolherá os frutos que semeou. Terá uma força de trabalho embrutecida, de serviços mínimos. De maus advogados, engenheiros, médicos, enfermeiros, polícias e bombeiros. De maus empregados de mesa ou de caixa de supermercado. De maus pais que, no seguimento destes de hoje em dia, continuarão a formar maus filhos, sem educação. É ESTA a cultura do país, não é a dos livros. É ESTA a imagem do nosso país. É que não adiantam os números nos seus relatórios a dizer-nos que os alunos acabam o 9º ano. É que muitos acabam-no apesar deste tipo de atitudes e posturas que não são uma excepção à regra mas sim o dia a dia nas escolas. E acabam-no porque estão protegidos e encobertos por um sistema que tudo faz para que não deixa que os alunos saiam da escola, mas que pouco ou nada faz para que APRENDAM na escola.
E andar na escola não implica aprender, como qualquer pessoa com bom senso sabe.
Pois bem, tem-nos entrado pela casa dentro, via TV, a falar dos "professorzecos" (como ela nos chama), da avaliação, das escolas que querem fazer a avaliação, do enormíssimo sucesso do seu trabalho, do grandioso legado que, certamente, nos deixará.
Esta semana veio a público o caso da agressão feliz ou infelizmente filmado por um aluno. Deixem-me analisar esta frase antes de seguir em frente. "Agressão". Uns papás dirão que exagero, que a aluna não agrediu ninguém. Provavelmente, os mesmos papás que, caso a situação se invertisse ou se um professor ousasse tocar no proverbial cabelo de sua menina classificariam o acto como uma "brutal agressão". Nada que me tire o sono, portanto. O "feliz ou infelizmente filmado", por seu lado, reporta-se à filmagem em si, feita com um telemóvel. Por um lado é bom que situações destas venham a público, para que se veja o que é, na verdade, o trabalho de um professor. Pois é, é que os filhos que vocês "educam" aí em casa desta forma, agem desta forma connosco. Não são os santinhos que alguns pintam, de auréola redondinha a beijar-lhe a testa. Por outro, quem o filmou, fê-lo utilizando um equipamento proibido na sala de aula. Fê-lo, filmando e rindo-se alarvemente da situação em vez de intervir. Gozou com a situação em vez de a criticar, porque ele também é prejudicado por não ter a aula que deveria ter - e ser do seu interesse. No fundo, foi mais um idiota a aplaudir a festa.
Mas adiante. A mesma Ministra que tanto tem aparecido, o mesmo Primeiro-Ministro que tanto tem esganiçado a voz a defender as políticas e o resultado das políticas da sua subordinada, a mesma Ministra que, no fundo, é a nossa "patroa", desta vez calou-se.
Nem uma palavra de apreço, de solidariedade, de crítica a este tipo de alunos que - pusesse ela os pezinhos numa escola e ficaria a saber - estão em todo o lado. O meu "patrão" não defendeu a minha classe. Remeteu-se ao silêncio. A senhora que apregoa os grandes resultados das suas políticas foi incapaz de assumir que este é um sub-produto das mesmas, resultante da desautorização, da falta de respeito e do enxovalhamento público da figura do Professor que ela própria promoveu. Tudo são rosas! Os números dizem-nos tudo o que há para dizer! Todos os alunos passam de ano, o número de alunos a desistir do ensino desceu a pique, há cada vez mais alunos a concluírem o ensino obrigatório! Fantástico! Soem as trombetas!
Mas não são melhores, senhora Ministra! Podem ter o 9º ano, mas são, em muitos casos, aquilo que se vê ali. Gentinha sem educação, sem qualquer respeito pela autoridade, sem métodos de trabalho, sem responsabilidade cívica ou laboral, sem controlo, sem brio. São o resultado do esplendoroso culto da mediocridade por si (e pelos anteriores ministros, vá, que a culpa não será só sua) implementado, cultivado, acarinhado. E, senhora Ministra, um dia recolherá os frutos que semeou. Terá uma força de trabalho embrutecida, de serviços mínimos. De maus advogados, engenheiros, médicos, enfermeiros, polícias e bombeiros. De maus empregados de mesa ou de caixa de supermercado. De maus pais que, no seguimento destes de hoje em dia, continuarão a formar maus filhos, sem educação. É ESTA a cultura do país, não é a dos livros. É ESTA a imagem do nosso país. É que não adiantam os números nos seus relatórios a dizer-nos que os alunos acabam o 9º ano. É que muitos acabam-no apesar deste tipo de atitudes e posturas que não são uma excepção à regra mas sim o dia a dia nas escolas. E acabam-no porque estão protegidos e encobertos por um sistema que tudo faz para que não deixa que os alunos saiam da escola, mas que pouco ou nada faz para que APRENDAM na escola.
E andar na escola não implica aprender, como qualquer pessoa com bom senso sabe.
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E para quando a avaliação dos papás?
O Carolina Michaëlis, que já teve o belo nome de liceu, não serve os miúdos do bairro do Aleixo, no Porto. Não, aquele vídeo (ver págs. 4 e 5) não mostra gente com desculpas fáceis, vindas do piorio. Pela localização daquela escola, quem para lá vai vive às voltas da Boavista e os pais têm jantes de liga leve sem precisar de as gamar. Os pais da miúda histérica que agride a professora de francês estarão nessa média. Os pais do miúdo besta que filma a cena, também. Tudo isso nos remete para a questão tão badalada das avaliações. Claro que não me permito avaliar a citada professora. A essa senhora só posso agradecer a coragem. E pedir-lhe perdão por a mandar para os cornos desses pequenos cobardolas sem lhe dar as condições de preencher a sua nobre profissão. Já avaliar os referidos pais, posso: pelo visto, e apesar das jantes de liga leve, valem pouco. O vídeo mostrou-o. É que se ele foi filmado numa sala de aula, o que mostrou foi a sala de jantar daqueles miúdos.|
por Ferreira Fernandes
in http://dn.sapo.pt/2008/03/21/opiniao/e_para_quando_a_avaliacao_papas.html
por Ferreira Fernandes
in http://dn.sapo.pt/2008/03/21/opiniao/e_para_quando_a_avaliacao_papas.html
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quinta-feira, 20 de março de 2008
Obrigado Srª. Ministra
Eis ao que chegou a sua desresponsabilização dos alunos. Eis o resultado das suas políticas facilitistas que nos dizem que um aluno transita de ano a não ser que se prove o contrário e se preencham as milhares de folhas necessárias por cada elemento do conselho de turma. Eis ao que leva a sua tolerância excessiva e abusiva. Eis aquilo que está a formar. Será esta a mão-de-obra deste país daqui a uns anos. A sua desautorização pública aos docentes, o seu julgamento e catalogação de todos os professores na Praça Pública foi minando aos poucos até destruir, por completo, uma das nossas principais ferramentas de trabalho: O RESPEITO.
Fica o excerto do EXPRESSO:
Uma professora de francês da Escola Secundária Carolina Michaelis, no Porto, foi brutalizada, em plena aula, quando tentava tirar o telemóvel a uma aluna.Os restantes alunos assistiram e filmaram. O vídeo está no YouTube.
O episódio foi filmado pelos alunos e está no YouTube. Enquanto a professora tentava tirar o telemóvel à estudante, os restantes alunos assistiam e riam-se da situação.
Nos comentários ao vídeo no YouTube a atitude é criticada por outros alunos da escola.
Alteração nº 2 - o vídeo original foi removido. Uma cópia do mesmo encontra-se aqui:
E, já agora, a página do Youtube onde esse mui prestável aluno, que filmou o sucedido, rindo-se da situação, fez o favor, certamente por graça, de colocar o vídeo. Para que todos saibam. Para que todos se possam envergonhar do país e da educação que temos.
Continua o EXPRESSO:
Ministério abre inquérito
Contactada pelo Expresso a Direcção Regional de Educação do Norte (DREN) disse que só hoje teve conhecimento do caso, através de um e-mail enviado por uma cidadã. António Leite, director-adjunto da DREN,ordenou à escola a abertura de um inquérito. E adiantou que o Conselho Directivo da escola soube do caso através da DREN.
A presidente do Conselho Directivo não se mostrou disponível para prestar declarações ao Expresso.
O sindicato de professores do Norte não tem conhecimento do caso.
VERGONHA!
Alteração de última hora - O vídeo foi tornado inacessível por ligação externa, portanto só através da página do Youtube é que poderão visualizá-lo. http://www.youtube.com/watch?v=EhLTvLCP8xw
Fica o excerto do EXPRESSO:
Uma professora de francês da Escola Secundária Carolina Michaelis, no Porto, foi brutalizada, em plena aula, quando tentava tirar o telemóvel a uma aluna.Os restantes alunos assistiram e filmaram. O vídeo está no YouTube.
O episódio foi filmado pelos alunos e está no YouTube. Enquanto a professora tentava tirar o telemóvel à estudante, os restantes alunos assistiam e riam-se da situação.
Nos comentários ao vídeo no YouTube a atitude é criticada por outros alunos da escola.
Alteração nº 2 - o vídeo original foi removido. Uma cópia do mesmo encontra-se aqui:
E, já agora, a página do Youtube onde esse mui prestável aluno, que filmou o sucedido, rindo-se da situação, fez o favor, certamente por graça, de colocar o vídeo. Para que todos saibam. Para que todos se possam envergonhar do país e da educação que temos.
Continua o EXPRESSO:
Ministério abre inquérito
Contactada pelo Expresso a Direcção Regional de Educação do Norte (DREN) disse que só hoje teve conhecimento do caso, através de um e-mail enviado por uma cidadã. António Leite, director-adjunto da DREN,ordenou à escola a abertura de um inquérito. E adiantou que o Conselho Directivo da escola soube do caso através da DREN.
A presidente do Conselho Directivo não se mostrou disponível para prestar declarações ao Expresso.
O sindicato de professores do Norte não tem conhecimento do caso.
VERGONHA!
Alteração de última hora - O vídeo foi tornado inacessível por ligação externa, portanto só através da página do Youtube é que poderão visualizá-lo. http://www.youtube.com/watch?v=EhLTvLCP8xw
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quarta-feira, 19 de março de 2008
O nosso país visto de fora...
Cito aqui uma carta aberta de uma professora portuguesa a leccionar no estrangeiro. Dizem-nos que a terra só soube o que era na verdade quando o vento a jogou no ar. A distância ajuda-nos a ver. A avaliar as coisas de uma outra perspectiva impossível de atingir quando se está submerso nelas.
Fica o texto, para leitura e reflexão:
Sendo professora com 32 anos de carreira,tenho seguido e sofrido dia a dia não só com as imposições, e divagações do Ministério, mas também com a perseguição de que os docentes têm sido alvo.
Talvez o facto de leccionar Língua e Cultura Portuguesa no Estrangeiro me tenha dado uma visão de sistemas de educação que me permite fazer comparações que não estariam tão ao meu alcance se leccionasse só em Portugal
Neste ponto só tenho a dizer que o modo como o Ministério da Educação e muitos Encarregados de Educação actualmente tratam os professores seria inconcebível e inaceitável em qualquer país civilizado.
Mas o que mais me espanta, e quase me daria vontade de rir, se o assunto não fosse tão sério, é o elevado número de indivíduos, oriundos de várias camadas sociais e profissionais, que até hoje nenhum interesse mostraram pela Escola, mas que de um dia para o outro se tornaram peritos em Educação e sabem tudo, mesmo tudo!
São absolutamente espantosos as comentários feitos, publicamente, à Manifestação de Professores no passado dia 8 de Março.
O Jornalista Emídio Rangel dá-lhes o nome de "hooligans", uma "senhora" (aspas intencionais) que pôs um artigo na Internet ( Portugal Notícias,.13.03) apelida a marcha de professores de "marcha de chulos". Outro jornalista do Correio da Manhã diz que os professores "andaram aos saltinhos pelas ruas".
Um senhor reformado ( PWB Netcabo 12.03) queixa-se que começou a trabalhar aos 14 anos, mudou 10 vezes de emprego, tem uma pequena reforma e que os malandros dos professores ficam com boas reformas sem fazer nada, ou quase nada!
E todos concordam em, pelo menos, quatro pontos : os professores são uns madraços, preguiçavam à conta do Estado, pelam-se de medo da avaliação e viva a Sra. Ministra que vai meter isto tudo na ordem !
Os professores são o bode expiatório da nação. Dilapidaram os cofres do Estado e não ensinaram nada aos coitados dos alunos.
Avaliem-nos! Avaliem-nos ! - grita a multidão - os professores andaram anos e anos armados em espertos, a passar e a chumbar alunos à sua livre vontade, agora somos nós que os passamos ou chumbamos, nós, os pais e os alunos, e só passamos quem quisermos!
Ora, meus caros - e menos caros - amigos, há aqui vários equívocos graves.
Para começar, todos os professores são profissionais com uma formação estruturada, aplicada e aprovada pelo Ministério da Educação.
Os professores e os médicos são as duas categorias profissionais em que são perfeitamente visíveis os resultados do seu trabalho e em que a avaliação é feita dia a dia, no local de trabalho, através dos resultados que atingem.
Se o médico não consegue descobrir o tratamento adequado ou comete um erro, o doente morre.
Se o professor não ensina, logicamente, o aluno não aprende.
Mas agora surge o ponto crucial da questão:
Se o doente não tomar os medicamentos e não seguir os conselhos médicos, no caso de morrer,a culpa é do médico?
Ou se o médico não tiver os medicamentos para ministrar e os instrumentos para a operação, se o doente morrer, a culpa é dele?
É lógico que não é. Mas nesse caso, poque andam a culpar os professores dos maus resultados dos alunos, se lhes retiraram todos - ou quase todos os"medicamentos " e "instrumentos" de que dispunham para exercer a sua profissão?
Refiro-me aqui ao respeito, à autoridade dentro da sala de aula, à possibilidade de fazer com que os alunos estivessem quietos, calados , prestassem atenção à aula, não faltassem e tentassem, pelo menos, atingir a nota mínima para passar de ano.
Actualmente, nada disto é possível. Se o professor tenta tirar o telemóvel ao aluno, porque está a enviar mensagens em vez de seguir a aula, recebe ameaças - e não só - de agressão física da parte do aluno e dos pais do mesmo.
Quando um Director de Turma telefona para os pais de um aluno, porque já há vários dias este não aparece nas aulas, é insultado e os pais dizem-lhe que não tem nada a ver com isso.
Mas não há nenhum problema,porque actualmente e devido às sábias medidas da Sra. Ministra, quase não é preciso os alunos irem às aulas para fazerem o 9° ano! Podem faltar quanto quiserem e não precisam de ter nota suficiente, mas, se mesmo assim não conseguirem, têm as "Novas Oportunidades", em que conseguem terminar a escolaridade mesmo sendo semi-analfabetos.
Mas ai do docente que cometa um erro! A "senhora" que mencionei acima falava , indignadíssima de uma professora que Tinha Cometido Um Erro No Enunciado DE UM TESTE ! Do modo em que apresentava a questão, parecia que daí poderia resultar o fim do mundo, ou, pelo menos, a terceira Guerra Mundial.
Mas continuando, de quem é a culpa? De um Ministério que abandalha ( peço perdão da palavra, mas é a mais correcta) ao máximo as condições do ensino, que retira aos professores todas as possibilidades de ministrar um ensino em condições, que permite presentear com certificados do 9° ano todo o arruaceiro, faltista e preguiçoso que nunca quis fazer nada na escola, só para camuflar os erros ministeriais que cometeu?
A quem admira que, nestas condições, o "doente ensino" morra, ou fique pelo menos incapacitado?
Avaliação! Avaliação!Avaliação! -grita a multidão. Vamos avaliar os incompetentes dos professores!
E a Sra. Ministra rejubila. Sim, porque enquanto estiverem ocupados com um processo de avaliação tão incorrecto,tão moroso, complicado desnecessariamente ao mais alto grau, os professores não vão sequer ter tempo para comer ou dormir, quanto mais para ensinar, criticar o sistema de ensino ou organizar manifestações.
Mas todos estes peritos do ensino de chocadeira podem estar descansados!
Daqui a alguns ( poucos) anos, quando tiverem medo de sair de casa porque correm o risco de ser assaltados na próxima esquina - quem não ganha dinheiro e não sabe onde o ir buscar, vai roubar- quando forem pessimamente atendidos nos Correios, no Banco ou numa loja, quando estiverem três meses à espera de telefone porque o seu nome vem sempre soletrado errado,quando se sentirem preocupados com graves problemas de desemprego, criminalidade, tráfico de droga ou prostituição, lembrem-se de que ajudaram, um pouco, a criar uma geração sem valores estabelecidos, sem conhecimentos básicos, sem regras de comportamento, sem hábitos de trabalho, porque que lhes foi permitido andar na escola sem fazer nada e pensar que não é preciso fazer nada para ter tudo, sem reflectirem no choque que esses jovens vão sofrer quando chegarem à vida real e ao mercado de trabalho e ver que as coisas não são nada como lhes fizeram crer.
Os que batem nos professores hoje vão ser ou os criminosos ou os explorados pelas empresas amanhã.
Pensem nisto, meus caros - e menos caros - amigos. Pense nisto também, Sra. Ministra !
Pensem que a escola deveria ser uma preparação para a vida. Já o foi, e sei isso, porque trabalhei nesses moldes.
Agora não é uma preparação para nada, a não ser um futuro muito incerto.
Os erros que se cometem com uma geração reflectem-se nas gerações seguintes.
Pensem nisso.
Nuremberga, Alemanha, 15.03.08
Maria Teresa Duarte Soares - Professora
Fica o texto, para leitura e reflexão:
Sendo professora com 32 anos de carreira,tenho seguido e sofrido dia a dia não só com as imposições, e divagações do Ministério, mas também com a perseguição de que os docentes têm sido alvo.
Talvez o facto de leccionar Língua e Cultura Portuguesa no Estrangeiro me tenha dado uma visão de sistemas de educação que me permite fazer comparações que não estariam tão ao meu alcance se leccionasse só em Portugal
Neste ponto só tenho a dizer que o modo como o Ministério da Educação e muitos Encarregados de Educação actualmente tratam os professores seria inconcebível e inaceitável em qualquer país civilizado.
Mas o que mais me espanta, e quase me daria vontade de rir, se o assunto não fosse tão sério, é o elevado número de indivíduos, oriundos de várias camadas sociais e profissionais, que até hoje nenhum interesse mostraram pela Escola, mas que de um dia para o outro se tornaram peritos em Educação e sabem tudo, mesmo tudo!
São absolutamente espantosos as comentários feitos, publicamente, à Manifestação de Professores no passado dia 8 de Março.
O Jornalista Emídio Rangel dá-lhes o nome de "hooligans", uma "senhora" (aspas intencionais) que pôs um artigo na Internet ( Portugal Notícias,.13.03) apelida a marcha de professores de "marcha de chulos". Outro jornalista do Correio da Manhã diz que os professores "andaram aos saltinhos pelas ruas".
Um senhor reformado ( PWB Netcabo 12.03) queixa-se que começou a trabalhar aos 14 anos, mudou 10 vezes de emprego, tem uma pequena reforma e que os malandros dos professores ficam com boas reformas sem fazer nada, ou quase nada!
E todos concordam em, pelo menos, quatro pontos : os professores são uns madraços, preguiçavam à conta do Estado, pelam-se de medo da avaliação e viva a Sra. Ministra que vai meter isto tudo na ordem !
Os professores são o bode expiatório da nação. Dilapidaram os cofres do Estado e não ensinaram nada aos coitados dos alunos.
Avaliem-nos! Avaliem-nos ! - grita a multidão - os professores andaram anos e anos armados em espertos, a passar e a chumbar alunos à sua livre vontade, agora somos nós que os passamos ou chumbamos, nós, os pais e os alunos, e só passamos quem quisermos!
Ora, meus caros - e menos caros - amigos, há aqui vários equívocos graves.
Para começar, todos os professores são profissionais com uma formação estruturada, aplicada e aprovada pelo Ministério da Educação.
Os professores e os médicos são as duas categorias profissionais em que são perfeitamente visíveis os resultados do seu trabalho e em que a avaliação é feita dia a dia, no local de trabalho, através dos resultados que atingem.
Se o médico não consegue descobrir o tratamento adequado ou comete um erro, o doente morre.
Se o professor não ensina, logicamente, o aluno não aprende.
Mas agora surge o ponto crucial da questão:
Se o doente não tomar os medicamentos e não seguir os conselhos médicos, no caso de morrer,a culpa é do médico?
Ou se o médico não tiver os medicamentos para ministrar e os instrumentos para a operação, se o doente morrer, a culpa é dele?
É lógico que não é. Mas nesse caso, poque andam a culpar os professores dos maus resultados dos alunos, se lhes retiraram todos - ou quase todos os"medicamentos " e "instrumentos" de que dispunham para exercer a sua profissão?
Refiro-me aqui ao respeito, à autoridade dentro da sala de aula, à possibilidade de fazer com que os alunos estivessem quietos, calados , prestassem atenção à aula, não faltassem e tentassem, pelo menos, atingir a nota mínima para passar de ano.
Actualmente, nada disto é possível. Se o professor tenta tirar o telemóvel ao aluno, porque está a enviar mensagens em vez de seguir a aula, recebe ameaças - e não só - de agressão física da parte do aluno e dos pais do mesmo.
Quando um Director de Turma telefona para os pais de um aluno, porque já há vários dias este não aparece nas aulas, é insultado e os pais dizem-lhe que não tem nada a ver com isso.
Mas não há nenhum problema,porque actualmente e devido às sábias medidas da Sra. Ministra, quase não é preciso os alunos irem às aulas para fazerem o 9° ano! Podem faltar quanto quiserem e não precisam de ter nota suficiente, mas, se mesmo assim não conseguirem, têm as "Novas Oportunidades", em que conseguem terminar a escolaridade mesmo sendo semi-analfabetos.
Mas ai do docente que cometa um erro! A "senhora" que mencionei acima falava , indignadíssima de uma professora que Tinha Cometido Um Erro No Enunciado DE UM TESTE ! Do modo em que apresentava a questão, parecia que daí poderia resultar o fim do mundo, ou, pelo menos, a terceira Guerra Mundial.
Mas continuando, de quem é a culpa? De um Ministério que abandalha ( peço perdão da palavra, mas é a mais correcta) ao máximo as condições do ensino, que retira aos professores todas as possibilidades de ministrar um ensino em condições, que permite presentear com certificados do 9° ano todo o arruaceiro, faltista e preguiçoso que nunca quis fazer nada na escola, só para camuflar os erros ministeriais que cometeu?
A quem admira que, nestas condições, o "doente ensino" morra, ou fique pelo menos incapacitado?
Avaliação! Avaliação!Avaliação! -grita a multidão. Vamos avaliar os incompetentes dos professores!
E a Sra. Ministra rejubila. Sim, porque enquanto estiverem ocupados com um processo de avaliação tão incorrecto,tão moroso, complicado desnecessariamente ao mais alto grau, os professores não vão sequer ter tempo para comer ou dormir, quanto mais para ensinar, criticar o sistema de ensino ou organizar manifestações.
Mas todos estes peritos do ensino de chocadeira podem estar descansados!
Daqui a alguns ( poucos) anos, quando tiverem medo de sair de casa porque correm o risco de ser assaltados na próxima esquina - quem não ganha dinheiro e não sabe onde o ir buscar, vai roubar- quando forem pessimamente atendidos nos Correios, no Banco ou numa loja, quando estiverem três meses à espera de telefone porque o seu nome vem sempre soletrado errado,quando se sentirem preocupados com graves problemas de desemprego, criminalidade, tráfico de droga ou prostituição, lembrem-se de que ajudaram, um pouco, a criar uma geração sem valores estabelecidos, sem conhecimentos básicos, sem regras de comportamento, sem hábitos de trabalho, porque que lhes foi permitido andar na escola sem fazer nada e pensar que não é preciso fazer nada para ter tudo, sem reflectirem no choque que esses jovens vão sofrer quando chegarem à vida real e ao mercado de trabalho e ver que as coisas não são nada como lhes fizeram crer.
Os que batem nos professores hoje vão ser ou os criminosos ou os explorados pelas empresas amanhã.
Pensem nisto, meus caros - e menos caros - amigos. Pense nisto também, Sra. Ministra !
Pensem que a escola deveria ser uma preparação para a vida. Já o foi, e sei isso, porque trabalhei nesses moldes.
Agora não é uma preparação para nada, a não ser um futuro muito incerto.
Os erros que se cometem com uma geração reflectem-se nas gerações seguintes.
Pensem nisso.
Nuremberga, Alemanha, 15.03.08
Maria Teresa Duarte Soares - Professora
terça-feira, 18 de março de 2008
quarta-feira, 12 de março de 2008
Como é lá fora...

Fica um excerto de um jornal que considero apaixonante. Isto, principalmente depois de eu ter contado aqui algumas das diferenças entre os contextos ensino público e formação profissional, é quase assustador.
Há que não confundir disciplina com ditadura. Há que formar tendo em vista os futuros empregos, onde a disciplina é exigida e não requer toquezinho de campaínha e onde os papás não têm (salvo as famosíssimas cunhas) grande impacto nas decisões de quem manda nos seus rebentos.
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terça-feira, 29 de janeiro de 2008
Avaliação dos docentes, parte I
Não me levem a mal, sou completamente a favor da avaliação dos professores. Aliás, sou a favor da avaliação de desempenho de todos! Trabalhei e trabalho ainda por conta de empresas privadas e lá, ou fazemos um bom trabalho ou eles arranjam outro que o faça. Mantém-se a fasquia elevada, os funcionários motivados para fazerem um bom trabalho (embora haja a motivação positiva, que envolve uma promoção e consequente melhor remuneração, e uma negativa, que envolve, em último caso, o despedimento) e assegura-se um funcionamento eficaz e eficiente da empresa, seja ela qual for e em que ramo se mova.
Não é só a carreira de docente que precisa de um sistema semelhante. No fundo, todos os sectores públicos mereceriam semelhante postura, do pen-pusher em princípio de carreira ao gestor de cadeira almofadada atrás de secretária em mogno. Já lidei com o sector público, numa altura em que eu trabalhava por conta de outrem e é, de facto, frustrante ver a displicência com que muitos funcionários públicos atendem clientes e digerem, sofrivelmente, o seu dia. Placidamente lendo jornais, revistas cor de rosa ou regando as plantinhas do escritório, pareciam apenas vagamente intrigados com a minha azáfama enquanto tratava de lhes resolver os problemas da competência da empresa para quem trabalhava. Não pretendo, atenção, meter tudo no mesmo saco e dizer que todos os funcionários públicos são assim, ou que todas as empresas públicas funcionam assim, mas, de facto, marcou-me. E a imagem é tudo. Qualquer empresa privada vos dirá o mesmo ou assinará por baixo.
Mas é complicado fazer a avaliação a tanto funcionário público, compreendo. E, mais complicado ainda seria, retirando-se o devido proveito dos investimentos na burótica, ir dispensando funcionários públicos que não rendam o que deveriam render, cometendo o sacrilégio de, a exemplo de 90% das empresas privadas, reduzir custos. Compreendo que, para o erário público numa visão geral, o custo de manter empregada uma pessoa pouco foge do custo de lhe pagar a reforma ou o subsídio de desemprego... E, para a imagem do país (inserir riso histérico aqui), seria mau esse aumento da taxa de desemprego. Seria um investimento a médio-longo prazo, vá. Pouco apreciado pela maioria, bem sei... e principalmente tendo em conta que governo atrás de governo insiste em nomear assessor atrás de assessor (com o apelido estranhamente parecido ao de alguém ligado ao governo, em muitos casos) para ganhar balúrdios e para fazer coisas que, acredito, sejam importantíssimas.
Mas vamos voltar aos professores. Vamos avaliá-los a eles que eles é que são a raiz do mal deste país. Não vale a pena avaliar ex-ministros que assinam contratos com a duração de décadas com empresas que, escassos anos depois, eles próprios presidem. Ou os sucessivos ministérios de educação que fazem, desfazem, refazem e voltam a desfazer sem a mínima preocupação em manter uma coesão, em manter uma linha geral para todo o ensino e profissionais que nele trabalham.
Quero ser avaliado. Sobretudo para que professores que mal merecem esse cargo sejam responsabilizados pelos seus falhanços, pela sua incompetência, pela sua displicência ao lidar com a VIDA dos alunos (porque muitos mal percebem o impacto que o seu trabalho tem na vida dos miúdos). Avaliem! E tenham, pelo menos com estes funcionários públicos, a coragem de agir devidamente. Se alguém faz um mau trabalho não deve ser apenas impedido de progredir na carreira. (Acho que com este parágrafo muitos colegas meus me detestarão) Criem pelo menos a oportunidade para que novos docentes possam mostrar o seu trabalho. Muitos saem da universidade, inexperientes, é certo, mas com mais vontade de mostrar serviço do que muitos dos acomodados que se arrastam pelos corredores das escolas, lamentando o facto de ir ter que "aturar" os miúdos.
Tenham lá paciência, mas não temos que aturar ninguém. Somos pagos para fazer um serviço: dar aulas. Note-se que disse dar aulas em vez de ensinar. Ensinar implica que alguém aprenda. Aprender implica que haja motivação e um trabalho activo por parte de quem deseja aprender. Cabe-nos motivar e cultivar essa vontade, mas não é uma condição sujeita a avaliação consciente. Se há quem não queira aprender, pois que não aprenda. Eu posso tentar que aprendam, mas não posso (nem os papás me deixariam) exigir que o façam. E há tantos morangos com açúcar, operações triunfos, jogos de futebol, filmes e consolas a precisar de atenção que, compreende-se muitos jovens não tenham sequer tempo para se dedicar a aprender. O que lhes vale é que o nosso governo compreende isso e vai-lhes facilitando as coisas. Se o menino não sabe:
a) o professor é mau;
b) a matéria é muito difícil.
As soluções passam, geralmente por:
a) penalizar o professor;
b) simplificar a matéria.
O que não deixa de ser engraçado. Na Era da Informação, seria e esperar que o português médio cada vez soubesse mais, fosse mais capaz... E o que temos assistido é o contrário (que o digam os nossos engenheiros de estradas tortas, os nossos médicos com processos por negligência, os nossos arquitectos de casas com rachadelas ao fim de 2 anos, os nossos políti.... ui! isto não!).
O que interessa é o sucesso!! O que interessa é ter 80% dos alunos a concluir o 9º ano (mesmo que a maioria não saiba escrever uma palavra com mais de quatro sílabas sem dar um erro), o que interessa é reduzir a taxa de desemprego (nem que isso implique cursos profissionais em que prossiga o facilitismo das escolas públicas ou ter professores em part-time, com menos horas de trabalho - e consequente ordenado - inferior a muitos verdadeiros desempregados). E, como se gasta muito dinheiro com os professores (part-time ou full-time - para juntar dois estrangeirismos no mesmo parêntesis) vamos também tratar de fazer com que eles não subam tão rápida e facilmente na carreira.
Vamos até juntar o inútil ao desagradável. Já que se pretende que todos os alunos passem - até prova em contrário... e que difícil é, nos dias que correm, provar o contrário - independentemente das suas aptidões e conhecimentos, vamos dar um empurrãozinho para que os professores os passem: vamos por os papás dos meninos a avaliar os professores. Esses mesmo! Os papás dos meninos! Esses que nem conhecem os professores, a escola, que se dirigem à escola 1 vez por ano, quando o seu filho foi o (injustiçado) alvo de um processo disciplinar, ouvintes atentos das queixinhas dos seus rebentos que, coitadinhos, tiraram um zero no teste porque o professor não ensina e depois não deixa copiar e que ainda por cima embirra com eles, coitadinhos, que até têm o caderno em dia só que, por acaso, alguém o roubou e queimou por pura maldade. Os mesmos papás que são, muitos deles, analfabetos funcionais e que são os primeiros a atacar a escola e os professores em vez de tirar partido de um serviço que eles, afinal, também pagam e exigir e zelar para que os seus filhos tenham uma educação melhor. São esses senhores que nos vão dar as notas.
Aguardo (quase) ansiosamente o dia em que eu me converta ao funcionalismo público exemplar. Comprarei uma caneca que colocarei na minha secretária. Comprarei religiosamente as revistas cor de rosa. Trarei para a escola algumas plantas. No curto período em que os alunos querem e pretendem estar atentos, regorgitarei, de cor, alguma pseudo-informação e voltarei a minha atenção para a leitura empenhada das vidas e amores do nosso jet7, para a delicada atenção que me merecem as plantinhas e para a canequita com o café quente, para aquecer o espírito. Depois, bastará passar todos os alunos, piscar o olho aos que nada fizeram e sabem que passarão para cair nas boas graças dos seus papás. Tudo ficará bem. Perpetuar-se-á o ciclo das cunhas em Portugal, só que, desta vez, nem sequer é para um cargo de assessor.
Não é só a carreira de docente que precisa de um sistema semelhante. No fundo, todos os sectores públicos mereceriam semelhante postura, do pen-pusher em princípio de carreira ao gestor de cadeira almofadada atrás de secretária em mogno. Já lidei com o sector público, numa altura em que eu trabalhava por conta de outrem e é, de facto, frustrante ver a displicência com que muitos funcionários públicos atendem clientes e digerem, sofrivelmente, o seu dia. Placidamente lendo jornais, revistas cor de rosa ou regando as plantinhas do escritório, pareciam apenas vagamente intrigados com a minha azáfama enquanto tratava de lhes resolver os problemas da competência da empresa para quem trabalhava. Não pretendo, atenção, meter tudo no mesmo saco e dizer que todos os funcionários públicos são assim, ou que todas as empresas públicas funcionam assim, mas, de facto, marcou-me. E a imagem é tudo. Qualquer empresa privada vos dirá o mesmo ou assinará por baixo.
Mas é complicado fazer a avaliação a tanto funcionário público, compreendo. E, mais complicado ainda seria, retirando-se o devido proveito dos investimentos na burótica, ir dispensando funcionários públicos que não rendam o que deveriam render, cometendo o sacrilégio de, a exemplo de 90% das empresas privadas, reduzir custos. Compreendo que, para o erário público numa visão geral, o custo de manter empregada uma pessoa pouco foge do custo de lhe pagar a reforma ou o subsídio de desemprego... E, para a imagem do país (inserir riso histérico aqui), seria mau esse aumento da taxa de desemprego. Seria um investimento a médio-longo prazo, vá. Pouco apreciado pela maioria, bem sei... e principalmente tendo em conta que governo atrás de governo insiste em nomear assessor atrás de assessor (com o apelido estranhamente parecido ao de alguém ligado ao governo, em muitos casos) para ganhar balúrdios e para fazer coisas que, acredito, sejam importantíssimas.
Mas vamos voltar aos professores. Vamos avaliá-los a eles que eles é que são a raiz do mal deste país. Não vale a pena avaliar ex-ministros que assinam contratos com a duração de décadas com empresas que, escassos anos depois, eles próprios presidem. Ou os sucessivos ministérios de educação que fazem, desfazem, refazem e voltam a desfazer sem a mínima preocupação em manter uma coesão, em manter uma linha geral para todo o ensino e profissionais que nele trabalham.
Quero ser avaliado. Sobretudo para que professores que mal merecem esse cargo sejam responsabilizados pelos seus falhanços, pela sua incompetência, pela sua displicência ao lidar com a VIDA dos alunos (porque muitos mal percebem o impacto que o seu trabalho tem na vida dos miúdos). Avaliem! E tenham, pelo menos com estes funcionários públicos, a coragem de agir devidamente. Se alguém faz um mau trabalho não deve ser apenas impedido de progredir na carreira. (Acho que com este parágrafo muitos colegas meus me detestarão) Criem pelo menos a oportunidade para que novos docentes possam mostrar o seu trabalho. Muitos saem da universidade, inexperientes, é certo, mas com mais vontade de mostrar serviço do que muitos dos acomodados que se arrastam pelos corredores das escolas, lamentando o facto de ir ter que "aturar" os miúdos.
Tenham lá paciência, mas não temos que aturar ninguém. Somos pagos para fazer um serviço: dar aulas. Note-se que disse dar aulas em vez de ensinar. Ensinar implica que alguém aprenda. Aprender implica que haja motivação e um trabalho activo por parte de quem deseja aprender. Cabe-nos motivar e cultivar essa vontade, mas não é uma condição sujeita a avaliação consciente. Se há quem não queira aprender, pois que não aprenda. Eu posso tentar que aprendam, mas não posso (nem os papás me deixariam) exigir que o façam. E há tantos morangos com açúcar, operações triunfos, jogos de futebol, filmes e consolas a precisar de atenção que, compreende-se muitos jovens não tenham sequer tempo para se dedicar a aprender. O que lhes vale é que o nosso governo compreende isso e vai-lhes facilitando as coisas. Se o menino não sabe:
a) o professor é mau;
b) a matéria é muito difícil.
As soluções passam, geralmente por:
a) penalizar o professor;
b) simplificar a matéria.
O que não deixa de ser engraçado. Na Era da Informação, seria e esperar que o português médio cada vez soubesse mais, fosse mais capaz... E o que temos assistido é o contrário (que o digam os nossos engenheiros de estradas tortas, os nossos médicos com processos por negligência, os nossos arquitectos de casas com rachadelas ao fim de 2 anos, os nossos políti.... ui! isto não!).
O que interessa é o sucesso!! O que interessa é ter 80% dos alunos a concluir o 9º ano (mesmo que a maioria não saiba escrever uma palavra com mais de quatro sílabas sem dar um erro), o que interessa é reduzir a taxa de desemprego (nem que isso implique cursos profissionais em que prossiga o facilitismo das escolas públicas ou ter professores em part-time, com menos horas de trabalho - e consequente ordenado - inferior a muitos verdadeiros desempregados). E, como se gasta muito dinheiro com os professores (part-time ou full-time - para juntar dois estrangeirismos no mesmo parêntesis) vamos também tratar de fazer com que eles não subam tão rápida e facilmente na carreira.
Vamos até juntar o inútil ao desagradável. Já que se pretende que todos os alunos passem - até prova em contrário... e que difícil é, nos dias que correm, provar o contrário - independentemente das suas aptidões e conhecimentos, vamos dar um empurrãozinho para que os professores os passem: vamos por os papás dos meninos a avaliar os professores. Esses mesmo! Os papás dos meninos! Esses que nem conhecem os professores, a escola, que se dirigem à escola 1 vez por ano, quando o seu filho foi o (injustiçado) alvo de um processo disciplinar, ouvintes atentos das queixinhas dos seus rebentos que, coitadinhos, tiraram um zero no teste porque o professor não ensina e depois não deixa copiar e que ainda por cima embirra com eles, coitadinhos, que até têm o caderno em dia só que, por acaso, alguém o roubou e queimou por pura maldade. Os mesmos papás que são, muitos deles, analfabetos funcionais e que são os primeiros a atacar a escola e os professores em vez de tirar partido de um serviço que eles, afinal, também pagam e exigir e zelar para que os seus filhos tenham uma educação melhor. São esses senhores que nos vão dar as notas.
Aguardo (quase) ansiosamente o dia em que eu me converta ao funcionalismo público exemplar. Comprarei uma caneca que colocarei na minha secretária. Comprarei religiosamente as revistas cor de rosa. Trarei para a escola algumas plantas. No curto período em que os alunos querem e pretendem estar atentos, regorgitarei, de cor, alguma pseudo-informação e voltarei a minha atenção para a leitura empenhada das vidas e amores do nosso jet7, para a delicada atenção que me merecem as plantinhas e para a canequita com o café quente, para aquecer o espírito. Depois, bastará passar todos os alunos, piscar o olho aos que nada fizeram e sabem que passarão para cair nas boas graças dos seus papás. Tudo ficará bem. Perpetuar-se-á o ciclo das cunhas em Portugal, só que, desta vez, nem sequer é para um cargo de assessor.
segunda-feira, 14 de maio de 2007
Sou Professor!
Noutros países isso seria bom. Bem visto até. Aqui olham-me de soslaio. Julgam-me incompetente, preguiçoso. Rotulam-me como se eu me tivesse tornado professor apenas porque, coitadinho de mim, nada mais conseguia fazer. Como se vigiar, educar e formar os seus petizes fosse algo que nunca lhes passaria pela cabeça fazer.
Pois bem, EU GOSTO!
Gosto de ensinar. E tenho feito por ser cada vez melhor nisso. Ensino a jovens desde os 7 anos aos 59. Desde a primária a acções de formação específicas para activos empregados. E no entanto, continuo a ser visto como um cidadão de segunda, alguém que não trabalha, com demasiado tempo livre. Porque, obviamente, o meu trabalho é sempre fácil demais! É fácil dar aulas! Estar ali 90 ou 240 minutos em pé a dar uma aula é canja! Sem ironia! Não é muito difícil, apesar de ter que haver um controlo da disciplina e uma constante motivação, não é das coisas mais complicadas. Diacho, é o meu trabalho! É o meu trabalho visível! Aquele que todos vêm. O problema é que se calhar muitos só vêm isso.
O problema é que se minimiza tudo o resto. O estudo, a constante actualização que um professor tem que fazer (sendo professor de informática se calhar esta necessidade impera... há que estar permanentemente actualizado em vários programas, desde os sistemas operativos às ferramentas de produtividade, passando pelas linguagens de programação), o trabalho fora dos olhares de todos, que incluem o estudo, a preparação de aulas, a preparação de material próprio (quando o adoptado pela escola ou pelo ministério é inexistente, insuficiente ou inadequado), a correcção de testes, a resposta a toda uma burocracia que sabemos que é mal nacional e que incluem matrizes e critérios de avaliação para testes e exames que se sabe de antemão que não irão ser realizados.
Da mesma forma, se esquece que ser professor é mais do que preparar aulas e leccioná-las! É, muitas vezes, educar! É amparar jovens que não têm o necessário apoio em casa, que vêm de lares destruídos, que são vítimas de violência, que são abusados, que têm problemas como todos nós e falta de gente com quem desabafar como muitos de nós. Ser professor é estar permanentemente de braços abertos para tudo quanto os nossos alunos nos trazem. Porque da mesma maneira que eu não ensino apenas, os meus alunos não aprendem apenas. Riem, sofrem, choram, estudam, preguiçam, brincam... são pessoas!
Tal como eu.
Pois bem, EU GOSTO!
Gosto de ensinar. E tenho feito por ser cada vez melhor nisso. Ensino a jovens desde os 7 anos aos 59. Desde a primária a acções de formação específicas para activos empregados. E no entanto, continuo a ser visto como um cidadão de segunda, alguém que não trabalha, com demasiado tempo livre. Porque, obviamente, o meu trabalho é sempre fácil demais! É fácil dar aulas! Estar ali 90 ou 240 minutos em pé a dar uma aula é canja! Sem ironia! Não é muito difícil, apesar de ter que haver um controlo da disciplina e uma constante motivação, não é das coisas mais complicadas. Diacho, é o meu trabalho! É o meu trabalho visível! Aquele que todos vêm. O problema é que se calhar muitos só vêm isso.
O problema é que se minimiza tudo o resto. O estudo, a constante actualização que um professor tem que fazer (sendo professor de informática se calhar esta necessidade impera... há que estar permanentemente actualizado em vários programas, desde os sistemas operativos às ferramentas de produtividade, passando pelas linguagens de programação), o trabalho fora dos olhares de todos, que incluem o estudo, a preparação de aulas, a preparação de material próprio (quando o adoptado pela escola ou pelo ministério é inexistente, insuficiente ou inadequado), a correcção de testes, a resposta a toda uma burocracia que sabemos que é mal nacional e que incluem matrizes e critérios de avaliação para testes e exames que se sabe de antemão que não irão ser realizados.
Da mesma forma, se esquece que ser professor é mais do que preparar aulas e leccioná-las! É, muitas vezes, educar! É amparar jovens que não têm o necessário apoio em casa, que vêm de lares destruídos, que são vítimas de violência, que são abusados, que têm problemas como todos nós e falta de gente com quem desabafar como muitos de nós. Ser professor é estar permanentemente de braços abertos para tudo quanto os nossos alunos nos trazem. Porque da mesma maneira que eu não ensino apenas, os meus alunos não aprendem apenas. Riem, sofrem, choram, estudam, preguiçam, brincam... são pessoas!
Tal como eu.
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